Crítica de "Animais Fantásticos e Onde Habitam" #3

Crítica de 'Animais Fantásticos e Onde Habitam' #3 | Ordem da Fênix Brasileira
Animais Fantásticos e onde Habitam prova que o universo mágico de Harry Potter tem muito a oferecer
Por Giovanni Rizzo | Observatório do Cinema


Reconstrução, ou reforma, podem ser as palavras que definem o que significa esse filme dentro do universo Harry Potter. E o melhor, não é como se fosse necessário uma mudança total, uma repaginada após um fracasso, mas sim uma possibilidade de trazer algo novo a um mundo tão conhecido.

Dessa maneira, entende-se o motivo pelo qual Animais Fantásticos e Onde Habitam se passa nos EUA dos anos 1920, diferenciando-se por completo da Londres contemporânea onde Harry, Hermione e Rony viviam. Assim, esse universo repaginado parte de um exercício de imaginação, onde se pergunta como era o modus operandi do mundo bruxo num passado que hoje é conhecido por uma centena de imagens provindas justamente do cinema. Animais Fantásticos reimagina, a sua maneira, um período bastante conhecido, a fim de complementar seu universo.

Com isso, a década de 1930 para o filme carrega consigo um sentimento de inocência e ingenuidade. Esqueça a sombria atmosfera criada por David Yates nos últimos capítulos de Harry Potter, aqui o diretor constrói um filme muito mais leve em que as ameaças estão num nível controlável, como se tudo estivesse no alcance dos personagens na tela, o diálogo prevalece a uma possível batalha campal.

Nessa (re)construção de um novo mundo a partir do que já é conhecido, Yates e J. K. Rowling – que assina o roteiro dessa vez – mostram uma Nova York mágica tomada pela burocracia, numa espécie de regulamentação total dos Bruxos no país. Aborda também, projetos de diferenciação total entre magos e no-majs (como os americanos chamam os trouxas), alguns pendendo para o radicalismo, pregando um massacre aos humanos comuns, e outros bem mais moderados. Além disso, o roteiro de Animais Fantásticos contém elementos sutis que logo expandem o universo de Harry Potter, como a mera citação de Ilvermorny, escola de bruxaria concorrente de Hogwarts. Questões que evidenciam um novo mundo além daquele já bastante conhecido.

Nessa volta ao passado é interessante como Yates e Rowling propõe uma linha narrativa muito parecida com a de filmes do início do século passado. O longa já começa com uma premissa digna de uma comédia pastelão, o protagonista Newt Scamander (Eddie Redmayne) troca sua pasta, repleta de animais fantásticos, com Jacob Kowalski (Dan Fogler) um homem simples com o sonho de se tornar dono de uma padaria. Nessa troca de bagagens, Scamander envolve Kowalski numa aventura de proporções inimagináveis e os dois vão ter que sair por Nova Iorque caçando criaturas mágicas além de provar que a ameaça que atinge a cidade não é de origem animal, mas sim humana.

Com isso, Newt e Jacob não são uma dupla de aventureiros, mas sim dois cômicos em apuros. Em Animais Fantásticos, Eddie Redmayne e Dan Fogler são uma espécie de O Gordo e O Magro da bruxaria, dois clowns que apresentam de forma leve aquele universo. E, nessa situação, vale ressaltar o trabalho sensacional de Fogler, que demonstra ser um comediante de primeira grandeza, retirando riso com sacadas rápidas e expressões faciais surpreendentes. Num elenco recheado de estrelas (Colin Ferrel, Ezra Miller e Jon Voigth só para citar alguns) é o pouco conhecido Fogler que rouba a cena.

Diferentemente da maioria dos blockbusters, Animais Fantásticos não utiliza Dan Fogler e sua dupla com Eddie Reydmayne como um alívio cômico de suas escolhas dramáticas, eles são por si só um núcleo de humor dentro de um filme que está muito mais para comédia do que qualquer outra coisa. Assim, é interessante quando o filme pretende tomar caminhos mais sérios há toda uma preparação para um momento mais dramático. Havendo sempre uma passagem a um ambiente mais sombrio, como a estação de trem no clímax do filme; ou ainda a visita a uma boate comandada por elfos domésticos, que parece ter saído de um filme noir de gangster dos anos 1920; e principalmente na casa em que Credence (Miller) vive com sua mãe, uma trouxa que prega morte as bruxas, um ambiente que remete aos filmes de horror da Universal do início do século passado.

É interessante notar também, como Animais Fantásticos funciona como filme almanaque, assim como o livro que originou o longa. Em certo ponto da narrativa a trama sofre certa pausa, e o filme foca alguns bons minutos apenas para apresentar as diversas espécies de animais, uma a uma. E isso surge de maneira muito sutil e repentina, como se cumprisse com prazer algo que estava no cerne daquela história. Com um visual apurado que utiliza muito bem os recursos de computação gráfica, o filme vai apresentando cada animal e sua singularidade, deixando que o espectador deguste de cada elemento mágico. Essa passagem que de longe pode parecer gratuita, prova, ainda mais, que esse universo tem muito que mostrar.

Assim, Animais Fantásticos é um filme que constitui algo novo a partir de inúmeros pilares conhecidos. Seja em termos cinematográficos, utilizando todas as referências que os anos 1920 poderiam conceder ao filme. Como também do próprio universo de Harry Potter, Animais Fantásticos formula um mundo novo a partir daquilo que já foi construído ao longo de seus oito filmes e sete livros, enriquecendo ainda mais aquele universo fantástico.

Em certo ponto do filme, Jacob Kowalski diz que sabe não estar sonhando, pois não teria a capacidade de imaginar tudo aquilo. Esse é o sentimento que Animais Fantástico transmite ao longo de seus 131 minutos, um filme que prova como esse universo pode construir mundos extremamente fascinantes e criativos. A reconstrução desse fantástico universo criado e recriado por J. K Rowling e David Yates vem para acabar com qualquer duvida que cercasse essa nova série do universo Harry Potter.
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