Crítica de "Animais Fantásticos e Onde Habitam" #2

Crítica de 'Animais Fantásticos e Onde Habitam' #2 | Ordem da Fênix Brasileira
Universo de Harry Potter cresce, mas continua mágico
Por Natália Bridi | Omelete


"Minha vida acabou", soluçava uma menina, não mais que 18 anos, no rolar dos créditos da pré-estreia de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011). A hipérbole era em parte verdadeira. Para toda a geração que cresceu com os livros e filmes criados J.K. Rowling, o lado mágico de suas existências se encerrava naquele momento.

Um vazio, sentimental e financeiro, tomou o lugar do mundo bruxo nos cinemas até que, em 2013, a Warner Bros. anunciou a adaptação de Animais Fantásticos e Onde Habitam. Inesperada, a nova trilogia - que agora se estenderá por cinco filmes - prometia acompanhar o estudioso Newt Scamander (autor do livro didático adotado em Hogwarts), revelando suas criaturas extraordinárias em novos cenários, 70 anos antes de Harry Potter.

Porém, o que inicialmente parecia uma inocente comédia de erros, com o atrapalhado Newt perdendo seus animais pela Nova York da década de 1920, logo transformou-se em uma história complexa. A primeira cena de Animais Fantásticos e Onde Habitam contextualiza a verdadeira temática da nova franquia, com jornais apontando Grindelwald, bruxo obcecado pelas Relíquias da Morte e por uma "nova ordem mundial", como a ameaça a ser temida. Ainda assim, longe de ser o herói da vez, Newt (Eddie Redmayne) chega em Nova York despretensiosamente, com seu envolvimento nos problemas do mundo bruxo sendo algo puramente acidental.

Rowling, que faz sua estreia como roteirista, trabalha bem esses encontros e desencontros, unindo personagens com funções específicas para apresentar um mundo mágico diferente, ainda que familiar. Newt representa o velho fã desbravando um novo terreno; a burocrata Tina (Katherine Waterston) é a ponte de acesso ao Congresso Mágico dos Estados Unidos da América (MACUSA) e aos dramas enfrentados pelos bruxos locais; sua irmã, Queenie (Alison Sudol), tem o poder de ler mentes e consegue tirar de personagens reservados como Newt informações que jamais seriam ditas naturalmente; e Jacob, o trouxa, ou no-maj pela nomenclatura americana, representa o olhar do público, leigo ou não, ao reagir fascinado a cada movimento mágico - "Sabe como sei que não estou sonhando?", comenta ele para Newt, "Eu jamais teria imaginação para isso".

O domínio narrativo de Rowling também é notável na mistura precisa de encantamento e terror. Ao mesmo tempo em que as criaturas de Newt movimentam a aventura, garantindo o lado lúdico da história, a trama revela suas ameaças - Grindelwald e Nova Salem -, sempre em uma lógica de causa e efeito. Nada é gratuito porque tudo é carregado de significado. "Preconceito e repressão só levam ao sofrimento" grita a autora nas entrelinhas.

Da direção de David Yates o filme ganhou a experiência de quem assina outros quatro títulos desse universo, e que já sabe como traduzir visualmente a imaginação de J.K. Rowling. Os animais fantásticos, a maleta infinita de Newt e a sua mistura de habitats, os guarda-chuvas que surgem de varinhas, os figurinos levemente inusitados e até uma câmara da morte mágica surpreendem, continuando o deslumbre que fez a fama da franquia no cinema. Yates peca apenas no ritmo, que às vezes parece não acompanhar as exigências da sua roteirista.

O elenco, escalado em torno da figura frágil e peculiar de Eddie Redmayne (entenda), é um acerto essencial. Há uma aparente divisão entre o solar - Newt, Tina, Queenie e Jacob - e o sombrio - Mary Lou (Samantha Morton), Credence (Ezra Miller) e Percival Graves (Colin Farrell) -, mas o equilíbrio entre roteiro, direção e atuações evita maniqueísmos. A única discrepância é a participação de Johnny Depp como Grindelwald. Curta demais para um julgamento preciso, a escalação preocupa pelo desgaste do ator. Não é o temível bruxo que se vê em cena, mas a figura conhecida por interpretar tipos estranhos.

Na escolha do desajeitado Newt Scamander como guia, Rowling encontrou uma forma de contrabalançar as imperfeições naturais de um primeiro filme, ganhando a experiência que pavimentará o caminho dos próximos quatro longas. Mais mundano que seu predecessor Harry Potter, Animais Fantásticos e Onde Habitam sutilmente apresenta o contexto dos EUA na época, com o pós-Guerra, a Lei Seca e a aproximação da crise financeira, para substituir a jornada do herói por um paralelo histórico que deve chegar à Segunda Guerra Mundial. O mundo bruxo cresceu.
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